quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

MEU TESTEMUNHO


Em 25 de julho de 1991, o meu pai faleceu vítima de um infarto agudo do miocárdio. Ele era o meu ídolo, meu herói, uma das pessoas mais importante da minha vida, admirava-o de uma forma imensa. Sempre tive um tratamento diferenciado por ser a única filha mulher no meio de seis irmãos, paparicada e cheia de cuidados. Ele era um homem especial, marcante, carismático e muito inteligente. Sempre soube a hora certa de falar e de ficar em silêncio, de agir e reagir em qualquer situação apresentada em sua vida. Cresci observando as atitudes desse homem fantástico e apaixonante e a cada dia ficava mais e mais encantada e fascinada, sem contar com as inúmeras demonstrações de amor dedicadas a mim como filha amada.
Em maio de 1991 meu pai foi ao médico, queixava-se de um caroço nas costas que lhe causava desconforto. Ao retornar estava meio chateado, haviam marcado a cirurgia para agosto, ele teria que aguardar três meses para solucionar aquele problema que tanto incomodava.
Lembro-me como hoje. Normalmente ele não era de ficar reclamando dos percalços da vida, encarava tudo de cabeça erguida e positivamente, mas nesse dia foi diferente, questionou pela demora em solucionar o problema que estava lhe afligindo naquele momento. Naquele instante, como um zumbido no ouvido, um sopro de voz, que rapidamente disse-me, ele já estará morto e fedido nessa data. Fiquei perturbada com aquilo e contestei, nem em pensamento aceitava a possibilidade de isso vir acontecer, simplesmente fugir, por não admitir por hipótese alguma. Por incrível que pareça a voz veio acompanhada de um cheiro ruim. Não tive a ousadia e nem coragem de revelar aquele episódio a ninguém, tomei como uma alucinação, algo sem fundamento.
Eu sempre vi a morte como uma inimiga e a odiei profundamente por ter levado o meu pai tão querido. Quando recebi a triste notícia fiquei fora de mim, gritava como uma louca, cair no chão num desespero total. Os meus próprios irmãos não compreenderam a minha reação e assustados taxaram-me como louca, um deles chegou a dizer que havia baixado o santo em mim. Reconheço que fui escandalosa, não estava preparada para passar tamanha dor. Dizem que quando temos um sonho ruim, temos que contar para alguém imediatamente para que não aconteça, mas por puro medo permaneci em silêncio. O sentimento de culpa quis me dominar.
Já com a minha mãe foi bem diferente. Quando tudo aconteceu, fiquei fragilizada e estive o tempo todo ao seu lado, com dedicação, carinho e muito amor. Igual a essa mulher, não existe outra no mundo, era dona de uma enorme doçura, jeitinho angelical pela beleza que faz bem aos olhos e o coração, calor humano, a bondade exalava por cada poro de sua pele. Isso não é um depoimento de uma filha, mas conhecidamente a opinião sincera de todas as pessoas que tiveram o privilégio de conhecê-la, como pessoa. Vivi um momento único, uma experiência jamais vivida antes, presenciei o momento de sua partida, entrei em sintonia com Deus e a entreguei nos braços de Nossa Senhora Aparecida, como intercessora junto ao Pai. Enquanto as lágrimas escorriam, implorava a Deus que a acolhesse em seus braços. Sofri muito, senti tal qual a perda do meu querido pai, mas não com desespero, vi a morte como uma passagem necessária, o começo e o fim de um novo ciclo de uma nova vida. Ali eu percebi que havia crescido interiormente e foi maravilhoso perceber essa mudança visivelmente.
Esse é o meu testemunho, algo que gostaria de compartilhar com o mundo, dois momentos especiais da minha vida, vividos de formas diferentes.