
Pai, foste para ares mais livres e climas mais doces, onde não é difícil ver que as dádivas que deste enquanto viveu, foram guardadas para ti.
A saudade é tanta que chega a apertar o coração, mas o que me conforta é saber que a morte não é o fim e sim o despertar para uma vida onde não há dor, só a paz do Senhor, nosso Deus. Ele sabe o que faz, que seja feita a Sua vontade, assim na terra como no céu.
Meu pai era um sábio, apesar de ser um homem humilde, carregava consigo o poder da palavra e sabia usá-la com segurança e firmeza. Nas diversas situações vividas, agia por impulso, estava sempre pronta a tomar a decisão certa na hora exata, como se já estivesse sempre preparado a agir repentinamente. Não é à toa que ele se transformou em meu heroi. Presenciei muitas situações que me deixaram fascinada.
Certo dia, numa festa junina, estávamos todos reunidos em uma casa, comemorando com alegria o São João. Muita comida, bebidas e muito forró. Na época, eu era criança, estava ali me divertindo com os meus irmãos e minha mãe. Nesse tipo de festa há sempre homens que bebem demais e sempre arrumam confuções. O Sr. Batista, que bebia muito, virou o valentão e queria bater em todos ali, com uma faca ameaçava furar todos, mulheres e homens tentavam acalmá-lo, foram espancados. Uma correria danada. Meu pai estava em casa, ouviu a gritaria e chegou a tempo de evitar uma tragédia; no momento que o tal homem levantou o braço para apunhalar uma pessoa, foi segurado pelo meu pai, que apareceu inesperadamente. Tomou a faca e o levou para longe dalí. A festa continuou até o amanhecer.
Tempos depois, o tal homem bebeu novamente e resolveu acertar as contas com o meu pai. A notícia se espalhou por toda a região e chegou aos ouvidos do meu pai, que aparentemente ficou super calmo e não demonstrou nenhum medo, de mãos limpas ficou esperando. Todos ali sabiam da fama do Sr. Batista. Era um homem temido por todos, aguns diziam que ele já havia matado um homem em Pernanbuco e não era do tipo de deixar barato uma ofensa. Meus irmãos mais velhos, adolescentes na época, cada um pega um pau enorme, prontos para defenderem o meu pai, que estava ali desarmado. Uma confusao danada, todos temiam o pior. Muitas pessoas tantavam acalmar o homem, mas ele estava espumando de raiva e dizia que só saía dalí quando o Miguel estivesse estirado no chão morto na frente de todos. Nesse dia eu tive muito medo. Meu pai e todos nós ficamos em casa, aguardando o desfecho daquele situação. Gritos anunciava a chegada do homem enfurecido, ele estava com uma faça enorme que brilhava de tão amolada. Calmamente o meu pai se apresentou. Como todo bêbado valentão, disse: “Miguel, ninguém bate num homem como eu e sai impune, hoje você morrerá na frente dos seus filhos”. Meu pai muito esperto, agiu com calma, atento aos movimentos do tal homem. Se ele estava com medo não deu para perceber, mas todos nós estávamos tremendo. Meu pai pediu para todos os filhos se afastarem e ali começou a luta. O homem tentando furar o meu pai e ele pulando de um lado para outro, em um dos saltos agarrou o homem brilhantemente, como um vencedor, tomou a enorme faça e deixou-o sem ação: desarmado e desmoralizado perante todos. O bonito de tudo isso é que em nenhum momento, o meu pai se vangloriou, contando vantagens e atribuiu aquele episódio ao desequilíbrio causado pela bebida.

Quando o meu pai estava prestes a completar 70 anos, manifestou o desejo de comemorar seu aniversário com sua família e amigos. Antes nunca havia festejado seu aniversário e estranhamos seu desejo repentino. Organizamos a festa e estávamos felizes ao vê-lo contente com os preparativos. Aos 69 anos, estava muito bem fisicamente, disposto e vaidoso aguardava ansioso o grande dia. Naquele época, havia uma rusguinha entre ele e uma das noras. Ele achou que a festa seria o momento ideal para acabar com aquela rusga e contava com isso. Ao chegar o dia da festa, todos os filhos, netos, noras e amigos foram chegando e animação era geral, mas ele percebeu que faltava uma das suas noras, justamente aquela que não poderia faltar. Notei que ele ficou desapontado, inquieto. Resolvi ir buscar a minha cunhada. Não foi fácil convencê-la, se julgava magoada, mas insisti e ela acabou aceitando vir. Ao chegarmos, vi seus olhos brilharem, num gesto de amor e humildade, veio abraçá-la. Ele queria ficar em paz com o mundo, com todos os parentes e amigos. Aquele momento era para festejarmos a alegria. A festa foi linda, um encontro maravilhoso entre todos os filhos, minha mãe, netos, noras, parentes e amigos queridos.
A prática do perdão exige tempo integral, por mais difícil que às vezes possa ser. Poucos se saem bem sempre. O perdão é a única verdadeira chance que damos ao mundo de recomeçar. E quando mais radical for, significa que mais nos desligamos do passado, seja em relação a um relacionamento pessoal, ou a um drama coletivo qualquer.
Pai, tu foste verdadeiro e soubeste amar as pequenas coisas da vida, transformando-as grandiosas, como o seu coração.
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