sábado, 14 de maio de 2016

O mistério de um olhar e a arte de sonhar

Há um mistério no ar, um simples olhar, revela-nos pensamentos e pode nos transmitir inúmeras mensagens, de amor, inveja, rancor, bondade e até mesmo maldades.
Muitos julgam-se capazes de ler pensamentos, mas cada pessoa, com um mínimo de sensibilidade, é capaz de descobrir, sem muito esforço, a verdade escondida nos olhos, mas para isso há métodos e profissionais especializados nessa prática através de estudos.
O mistério existe, envolve pessoas através de crenças, na maioria das vezes, se baseando no sobrenatural, de forma doentia e prejudicial a própria existência do ser humano.
Luiza, uma jovem simples e estudiosa, passou a se interessar pelo assunto polêmico, desenvolveu pesquisas, em busca de conhecimentos, com o objetivo de esclarecer as pessoas, que o mau, poderia estar na mente de cada um, que os olhos, apenas transmitiam esses sentimentos ruins.
Naquela região, falava-se em “mau olhado”. Era costume, todas as mães levarem seus filhos para benzerem de “mau olhado”. Crianças tomadas por este mal, ficavam largadas, com febre alta, etc. Logo após se benzerem, as crianças melhoravam.
Houve um caso interessante: Um conhecido Professor por nome Fidelsino, estudioso e nem um pouco religioso que contava uma história para seus alunos, dentre os alunos estava a Luiza, que atentamente ouviu o relato. “Segundo o professor, nasceu sua filha para a alegria de toda a família. O citado professor era irmão de um médico famoso, na época já era falecido, mas a fama havia ficado. Contava com outros médicos na família. Uma família de pose, fazia parte da elite da cidade. A menina era muito bonita e todos a admirava pela beleza e esperteza. Um certo dia, chegou a sua casa, uma senhora que disse, “que menina bonita! ” A partir daí a menina ficou doente, chorava muito e não comia nada, com febre alta. Foi levada aos melhores médicos da cidade, mas não havia melhora, não descobriam o que a menina tinha. O pai preocupado, saiu para providenciar um helicóptero para leva-la à Salvador com urgência. A mãe da menina, sem que o pai soubesse, pois sabia que ele não a deixaria, a levou a um benzedor, assim que terminou o ritual, a menina começou a melhorar. Quando o pai chegou, com tudo pronto para levá-la à Salvador, a menina estava boa correndo de um lado para o outro. Ele abraçou a filha chorando de alegria. No depoimento emocionado, ele admitiu que passou a acreditar na existência de mau olhado, por experiência própria.
Luiza, foi criada dentro de princípios religiosos, dentro do catolicismo, participava dos trabalhos da Igreja, voltado para as pessoas carentes. Nasceu ali o interesse de se formar em psicologia, para poder ajudar a semear nos corações a bela semente do amor, com fé e acreditando num amanhã melhor para todos.
Lidar com pessoas, não é e nunca foi tarefa muito fácil, mas apesar das dificuldades, ela persistia com determinação e coragem, encarando como uma missão sua, aqui na terra. Houve até ação de invejosos que tentaram denigrir sua imagem por pura maldade, insinuações maliciosas a sua conduta de boa moça, para prejudicá-la perante a sociedade.
Luiza tinha o dom de sonhar, através de sua mente construiu um mundo fantástico e encantado, para proporcionar alegria ao povo menos favorecidos, com diversões para adultos e crianças. Antes e depois das brincadeiras, faziam orações em agradecimentos a Deus por fazerem parte do universo e pela visão ampla da grandeza e beleza da natureza.
A Luiza ficou tão feliz ao ser convidada para ser madrinha do Antônio Carlos, filho de Dalva e Elias. Um batizado simples, porém, muito bonito. Festejaram com bolos e sucos.
Tempos depois, Luiza fez uma viagem, onde passaria alguns meses. Num determinado dia, ao anoitecer, ela estava sentada na varanda lendo um livro, de repente, pela janela aberta, entra um besouro e dar uma picada no dedão do pé, que logo ficou bastante inchado. Doía muito, apesar da dor, ela pressentiu algo ruim, um aperto enorme no peito, tristeza e uma vontade imensa de chorar. Dias depois, recebe a notícia do falecimento do seu afilhadinho, no mesmo dia e praticamente na mesma hora que ela tinha sido picada pelo besouro. Uma ligação forte entre afilhado e madrinha, embora ainda fosse uma criança pequena. Segundo comentários, a criança estava com vermes e a mãe deu-lhe uma dosagem a mais do remédio, que resultou no óbito da criança.
Por ser muito observadora, Luiza considerava que tudo na vida, tinha uma razão de ser, que ninguém era totalmente ruim, que a própria situação de vida, costumes, educação e outros fatores levavam a pessoas agirem erradamente, mas ao mesmo tempo, admitia na existência do bem e do mal, mas acreditava que o bem venceria sempre.
A Luiza conheceu um casal, que misteriosamente demonstraram a intenção de aproximação de amizade. Com educação e respeito não questionou os motivos que os levaram a se interessarem numa aproximação. Tinham três filhos, a mulher cuidava da casa e dos filhos e o homem trabalhava no correio da cidade, nas horas vagas, era pipoqueiro para complementar a renda familiar.
Luiza estava sempre fazendo algo, gostava de ler e escrever e se ariscava em desenhar lindas paisagens e ampliar fotos manualmente. O casal, logo se interessaram pelas paisagens, de tanto insistirem, ganharam uma paisagem de presente. Puseram uma moldura e colocaram na parede da sala da casa deles. Eles cobravam insistentemente a presença da Luiza, não compreendiam que ela preferia ocupar o seu tempo fazendo as coisas que lhe davam prazer, não gostava de ficar jogando conversa fora, era o jeito dela, sem querer menosprezá-los afastou-se. A mulher compreendeu, mas o marido se sentiu ofendido e mandou chamá-la em sua casa e disse-lhe coisas absurdas e sem fundamentos. Na presença da sua esposa, afirmou que a Luiza havia se insinuado para ele, com olhares de mulher traíra. Luzia simplesmente deu as costas sem dizer uma palavra se quer. Dias depois, o mesmo homem a procura para se desculpar e confessar que estava enfeitiçado por ela e que não suportava sua indiferença.
Para Luiza, não foi fácil essa situação. Ele já tinha demonstrado do que ele era capaz, embora bem jovem, preferiu manter em silêncio e rezar na intenção dos dois.
No Colégio, notou que um colega de classe, a olhava continuamente, um garoto bonitinho, era bem alegre e brincalhão com as demais colegas, menos com ela, apenas a olhava sem dizer qualquer palavra. Ela percebeu no seu olhar um certo interesse e era recíproco, na época, as meninas esperavam os meninos tomarem a iniciativa, aguardava silenciosamente, até que, um dia, ela ouviu um desabafo dele com uma colega mais velha, dizendo: “ A Luiza se julga melhor do que todo mundo, não gosto dela, ela é metida a besta, mas há no seu olhar, algo que me fascina e me deixa louco de uma forma assustadora. A partir dali ela achou melhor mantê-lo bem longe. Ainda por cima, ficou nervoso quando a moça lhe disse que ele estava apaixonado e disse-lhe coisas horríveis.
Engraçado, o seu colega também se referia a seus olhos com medo de algo, talvez não fosse digno de um sentimento puro e o único mistério que havia neles, era a grandeza de enxergar o mundo com amor com a intenção de combater o mal. Essas pessoas não se referiam a “mal olhado”, “olho gordo” e sim, um mistério que os envolviam, talvez numa atração física exclusivamente.
Numa bela viagem de trem, Luiza conheceu um lindo e interessante jovem, ambos trocaram olhares apaixonados, mas não se passou disso, seguiram cada um seu rumo. Numa outra viagem de trem, houve o reencontro, mas ele estava muito bem acompanhado e aparentava muito feliz ao lado da sua futura esposa.
Luiza não se abalava atoa, encarava tudo como desafios a serem vencidos, confiante seguia na certeza de um dia encontrar o seu grande amor.
Chegou a cidade, o Dr. Aurelino, para ocupar o cargo de Juiz da cidade. Com ele veio a esposa, Dona Judith, duas meninas e um menino, que foram estudar no mesmo Colégio que a Luiza estudava. As meninas se chamavam Ana e Clara e o menino tinha o mesmo nome do pai, Aurelino Junior.
Entre Luiza e Aurelino surgiu uma amizade, tinham afinidades e em pouco tempo surgiu um namorico. Os pais de ambos resolveram não interferirem por considerarem um namorinho de escola, julgando passageiro.
Luiza e Aurelino estavam apaixonados e felizes faziam planos para se casarem no futuro. Faziam juras de amor, como qualquer casal de apaixonados.
No final do curso, ambos foram para cidades diferentes. A despedida foi muito triste, mas sabiam que era necessário e que um dia estariam juntos para sempre. O tempo foi passando, passando e o reencontro foi se tornando cada vez mais difícil, a distância era imensa. Ele em Salvador-Bahia e ela em Porto Alegre – Rio Grande do Sul. Tornou-se difícil para ele retornar a Jacobina, seus pais haviam se mudado também para Salvador, pouquíssimas vezes se reencontraram pessoalmente, se correspondiam por cartas, telegramas e algumas vezes por telefone e aos poucos foi se distanciando por conta dos estudos, restando apenas as boas lembranças de um amor bonito.
A Luiza, por ser filha de uma família humilde e de pouco recurso, foi para Porto Alegre com um casal religioso e parente de um Padre da sua cidade. Devido ao seu esforço pelos estudos e seus trabalhos desenvolvidos na comunidade em prol aos mais carentes, resolveram apoia-la dando-lhe a oportunidade de custear seus estudos.
Ela ingressou na faculdade, na área de medicina e se especializou em psicologia. Muita grata ao casal que deram o primeiro empurrão, fazendo jus a ajuda, passou a executar pequenos trabalhos artesanais para ajudar nas despesas.
No último ano da faculdade, numa reunião entre amigos, foi apresentada a Laercio, um jovem dentista mineiro, que estava ali de passagem. Morava em Belo Horizonte, onde tinha seu consultório montado.
Laercio ficou encantado com o jeitinho da Luiza e não perdeu tempo, foi logo se declarando completamente apaixonado por ela. Nascia ali um romance bem bonito, ambos estavam fascinados um pelo outro, bastava vê-los suspirando e com os olhos brilhando de tanta felicidade. Não desgrudaram mais, a cada dia mais apaixonados, após um ano estavam juntinhos casados e felizes.
Foram morar em Belo Horizonte, onde receberam todo apoio dos pais do Laercio, que gostaram muito da nora e a receberam como filha. A família dela permaneceu em Jacobina, mas sempre iam visita-los em Belo Horizonte.
Laercio e Luiza viviam muito bem e felizes, ele com seu consultório dentário e ela trabalhando num hospital da cidade e logo montou também seu consultório.
Um casal perfeito, estavam sempre agradando um ao outro e viviam em clima de romance, sempre encontravam tempo para ficarem juntinhos curtindo a vida de casado e o aconchego do lar. Tiveram um casal de filho para completar a felicidade.
Havia um segredo na vida do Laercio, que só os seus pais tinham conhecimento. Ele temia revelar a sua esposa, não queria deixa-la triste e preocupada.
Em Porto Alegre, ele conheceu uma moça, muito antes da Luiza, tiveram um caso, um relacionamento complicado e tiveram um filho. Ele reconheceu o filho e pagava a pensão regularmente, nada a mais, mas a Vera não se conformava, que, queria mais e mais, tinha uma grande obsessão por ele e vivia fazia constantemente ameaças, sua intenção era em destruir seu casamento. Não suportava vê-lo feliz ao lado de outra mulher e dizia o tempo todo que era capaz de matar ou morrer por ele.
Laercio tentou contornar a situação para ganhar tempo, até surgir uma oportunidade para contar a sua esposa, só que ele não imaginou o tamanho da fúria da Vera. Veio à Belo Horizonte, aguardou a saída da secretária dele e de seu último paciente. Após uma discussão rápida, transtornada sacou a arma e deu-lhe vários tiros a queima roupa, fugindo em seguida. Sem saber de nada, como de costume, a Luiza passou no consultório do marido, para juntos retornarem para sua casa. Estranhou a porta aberta e ao entrar deparou com a cena mais horrível e dolorida da sua vida. Seu marido ensanguentado e estirado no chão. Abraçou o corpo do marido e aos prantos ligou para a polícia. Ela não tinha ideia do que havia acontecido, desnorteada deixou a cargo da polícia, mas não imaginou que ela própria seria a maior suspeita do assassinato do marido. Seus sogros desesperados com a morte dramática do filho, acabaram acusando-a alegando que ela tinha motivos para cometer o crime. Imaginaram que ela tinha descoberto tudo e revoltada havia cometido o delito. Num momento de muita dor, acabaram acusando a pessoa inocente. Luiza foi presa acusada de assassinato. Seus pais vieram buscar os netos enquanto tudo isso não fosse esclarecido. Ela sofreu humilhações e maus tratos na prisão, por um crime que não havia cometido.
Nos transes muito difíceis e amargos da vida, é quase impossível conseguir serenidade e alegria só por meio de considerações filosóficas porque a dor, a humilhação, o fracasso, a enfermidade e a morte são como astros fora de órbita, quando a separamos da eternidade e de Deus. Nesses momentos, somente a religião nos oferece explicação tranquilizadora. Unicamente à luz da eternidade se podem desprezar os sofrimentos e as humilhações humanas.
A Luiza desolada e triste, se apegou mais e mais com Deus, não fraquejou na sua Fé e confiava na providência Divina.
Um bom advogado foi solicitado por uma amiga, para defende-la daquela acusação absurda.
Este caso repercutiu por todo o país e chegou ao conhecimento do Aurelino, em Salvador, que imediatamente se interessou pelo caso, acreditando na inocência da Luiza. Veio à Belo Horizonte em solidariedade a amiga, prestar apoio e oferecer-lhe ajuda.
Não há acusação nem consolação tão forte como a da consciência e segundo a um velho ditado, não há crime perfeito, a verdade sempre aparece. Após investigações, uma carta da Vera foi descoberta, com todas as ameaças. A polícia de Porto Alegre foi acionada e iniciaram as buscas. Ela entrou em contradição, negou a princípio, mas acabou confessando o crime. Cometer injustiça é pior do que sofrê-la.
Luiza estava livre, era inocente, só lamentava o marido não ter confiado nela e assim ter evitado aquele horrível crime. Eram felizes e tinham tantas coisas para viverem juntos.
Não tinha motivos para continuar em Belo Horizonte. Os pais do seu marido deram-lhe as costas quando ela mais precisou de ajuda, apesar de não guardar rancor, compreendia o sofrimento deles, eram avós dos seus filhos, pretendia visita-los sempre que possível, mas preferiu retornar à Jacobina, sua terra natal e tocar sua vida com os seus filhos, na companhia dos seus pais e irmãos.
Em Salvador, Aurelino estava divorciado, tinha dois filhos que moravam com sua ex companheira.
Luiza tinha sido seu grande amor, deixou acalmar a situação e resolveu procurá-la para um possível entendimento.
Para Luiza, não era fácil pensar em casamento, pensava apenas no trabalho e dedicar-se ao máximo aos seus filhos. Mesmo sendo uma mulher de fé em Deus se julgava uma pessoa marcada e temia problemas futuros, expor a seus filhos em situações constrangedoras.
A volta ao amor não implica no fim, mas sim no começo dessa deliciosa aventura que é viver. Aurelino e Luiza resolveram se casar. Dizem que Deus escreve certo em linhas tortas. Quando o Aurelino se casou pela primeira vez, casou-se apenas no civil. Sua primeira esposa não era católica.
Uma grande e bela cerimônia marcou a união tão bonita entre um homem e uma mulher, que após sofrerem desafios, suspiravam aliviados e felizes.
A vida tinha sido dura demais para ela. Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.
Lições de vida, a grandeza de sonhar com um futuro longínquo, onde provavelmente o homem atingiria a sua total perfeição.
Viver significa muito mais que habitar em um corpo. A vida é uma extensão infinita de energia, um contínuo de amor que se distribui em incontáveis dimensões, uma experiência psicológica e espiritual independente da forma física. Vivemos e viveremos para sempre. A vida em um corpo representa uma escola importante, a oportunidade de libertar o mundo do inferno. Era o grande desejo da Luiza, que lutou quanto pode, tentando transmitir mensagens de otimismo, fé e esperança por todos os cantos por onde passou, numa luta constante e árdua, para semear em todos os corações, a bela semente do amor, pois a Luz Divina ilumina todas as trevas e que após a tempestade, o campo fica muito mais bonito.
Sua presença marcante, jamais será esquecida e muitos certamente darão continuidade e seguirão o exemplo dessa mulher cheia de energias positivas que soube amar as pessoas e todo o universo, com a pureza do seu imenso e bondoso coração.
Para Aurelino e Luiza, a morte era o despertar para uma nova vida, já tinham cumprido sua missão na terra e aguardavam o chamado de Deus, com alegria, pois é este o final de todos nós aqui na terra, mas enquanto há vida, há esperanças, há alegrias e motivos para celebrarem a vida e ao amor a Deus e aos povos.
Eles um dia felizes partiram para a eternidade, deixaram saudades e a certeza que souberam viver a vida e amar com todos as forças do coração. Deixaram escritas lições de vida, que jamais serão esquecidas.

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