
O nascimento do Rafael, foi comemorado com muita alegria, principalmente por parte do seu avô, que fez questão de demonstrar não só alegria, como satisfação e muita expectativa naquela criança que acabava de chegar ao mundo. Tão pequenininho e nas palavras do avô já era vitorioso. Segundo ele, aquele serzinho havia nascido para brilhar. Um amor tão grande que mal cabia no peito, seu coração tornou-se pequeno com a dimensão daquele sentimento. Não demorou para aquela criança, na sua inocência, perceber o tanto quanto era amado, pelo entusiasmo e o carinho a ele dedicado, passou a trocar o berço pelo colo.
Seus pais tiveram mais dois filhos, Pedro e Isabela que também receberam o amor e carinho dos avôs. O Pedro tinha muita dor de ouvidos e necessitava de cuidados médicos constantes, nada tão grave mas que necessitava de cuidados dobrados dos seus pais, um motivo a mais para o avô se aproximar um pouco mais do Rafael, assim ele sentiria acolhido e os deixavam cuidar do irmãozinho. Quando a Isabela nasceu, por ser uma menina, ele ficou cheio de alegria, relembrou o nascimento da sua tão amada filha. Todos sabiam da sua preferência por meninas. Mas nunca deixou o Rafael de lado, para ele, o Rafael ainda era o favorito, a criança mais linda e mais especial do mundo, seu neto preferido.
O Rafael crescia e a admiração do avô aumentava. Nos passeios que faziam juntos, nos ônibus e nos lugares onde eles chegavam, eram notados, o menino esperto e falante chamava a atenção de todos. Muitos elogios eram feitos, deixando o avô Antônio mais e mais encantado e orgulhoso.
O tempo foi passando, chegou o momento de colocá-lo na pré-escola e em seguida, à Escola e passou a cursar a primeira série. Um momento tão bonito e esperado para os pais e avô. Foi nessa época que os professores e pais perceberam que o Rafael era canhoto, mas para o avô era um defeito grave, aquilo não poderia acontecer com o seu neto predileto, tentou mudar isso. A sua mãe não aprovava a atitude do seu pai em querer obrigá-lo a usar a mão direita, tentou interver e obteve a seguinte resposta, tu não sabes de nada, essa mão é mão de merda, não aceito e ele vai usar a mão certa. Era difícil dialogar com seu pai, ele tinha sua opinião formada, não havia como mudá-lo. Que fazer naquela situação? Ele o amava de uma forma grandiosa, mas acabou sendo um motivo de preocupação para a mãe do Rafael. Quanto a isso não fez nada para impedir, por receio de ofendê-lo.
Outro fato aconteceu. Sua madrinha deu-lhe de presente, um Mickey, o Rafael passou a dormir agarradinho com o brinquedo e não largava. O avô Antônio ficou irritado com aquilo, como um menino homem brincar com aquele brinquedo de mulher, ele era macho e tinha que brincar com brinquedo de macho, jogou fora o brinquedo tão querido. O Rafael chorou muito, mas logo se convenceu que o seu avô tinha razão, ele sabia o que era melhor pra ele, certamente aquilo não era bom e compreendeu a atitude do avô.
Para Ana, seu pai era um homem correto, íntegro e apesar dos tempos serem outros, não via motivos para preocupação, apesar de não concordar com uma série de atitudes.
O Sr. Antônio fazia questão de levar e buscá-lo na Escola. Ele deixava claro, se apanhar na Escola, apanhará em casa também. Assim o Rafael apanhou muito por lá e bateu também e ficou por isso mesmo.
Um certo dia, sua mãe recebeu uma vizinha, que vendia produtos do Avon etc, o Rafael e o Pedro disfarçadamente induziram o cachorro a morder a senhora. O cachorro não era de latir, mas bastava um sinal para se aproximar silenciosamente e morder, quando a senhora menos esperava, recebeu uma mordida no bumbum ficando as marcas dos dentes naquela senhora. O cachorro era vacinado, mas foi uma situação constrangedora. Sua mãe ficou brava com os meninos e disse-lhes, quando a Dona Adalgisa for embora, darei uma surra nos dois. Correram e foram contar o acontecido ao avô, na defesa dos meninos disse-lhes, se ela bater em vocês, eu baterei nela também. Claro que ele não faria isso, mas deixou claro que estava do lado deles e que estaria pronto para defendê-los.
O Rafael, muito esperto, sabia que poderia contar com seu avô sempre, procurava agradá-lo e alegrá-lo mais e mais, acabava se destacando com sua simpatia e esperteza, se mostrando forte e destemido, um homenzinho.
Aos 10 anos, o avô do Rafael veio a falecer, vítima de um infarto agudo do miocárdio. O mundo desabou para ele, ao ver a sua mãe aos prantos, sofrendo. Que fazer diante aquela situação? Aquele homem que ele julgava imortal estava ali deitado imóvel para sempre. O que seria da sua vida dali para frente? A quem ele iria recorrer nas suas dores de barriga e nos probleminhas na Escola? Quantas e quantas vezes para deixar o vovô contente, tomava chá de boldo como se tivesse tomando um delicioso suco. O seu avô dizia aos quatro cantos, que essa criança teria um futuro brilhante e que se destacaria entre todos os outros netos. Deu-lhe asas para voar e acreditar que era possível sim, contava com o apoio dele ali ao seu lado, incentivando-o o tempo todo e mostrando-lhe o que só ele parecia enxergar. Sentiu-se perdido sem saber qual direção a seguir. Sentiu-se como se tivesse com suas asas quebradas, terrivelmente machucadas, impedindo-lhe de levantar vôo. Como não chorar numa situação daquela? Seu avô dizia que homem não chorava, que tinha que ser forte sempre. Como seria dali pra frente sem o seu amado avô, seu herói. Ele necessitava de colo, mas diante aquela situação, sua mãe também se encontrava fragilizada e sofrida com a perda tão sofrida do seu pai querido.
Algo mudou na vida do Rafael, ele passou a ser estabanado, não fazia nada com atenção, se tropeçava nos móveis e estava sempre sofrendo pequenos acidentes. Já não prestava atenção nas aulas e não cumpria os deveres de casa. Nas reuniões de pais, as notícias não eram das melhores, estava sempre envolvido em brincadeiras e tinha um comportamento estranho, ficava horas e horas com olhar fixo e perdido em pensamentos distantes. Preocupada sua mãe resolveu levá-lo ao psiquiatra para posteriormente ser encaminhado ao psicólogo. Mãe é mãe e ela percebeu que aquela criança necessitava de ajuda de um profissional. Mas o pai dizia ser médico de doido, fazia críticas e por essa razão não foi possível continuar com o tratamento.
O Rafael era rebelde, tinha um comportamento agressivo, parecia revoltado. Sua mãe não compreendia as razões e lamentava por ele não ter dado continuidade ao tratamento com o psicólogo.
Atualmente a Ana é viúva e vive com os seus três filhos. O Pedro casou-se e tem um filhinho, sempre foi um bom filho e nunca deu-lhe maiores preocupações. O Rafael embora não tenha se casado, tem uma filhinha e outra filha está por vir. Ambas de mães diferentes. É muito difícil a convivência com o Rafael, ele não tem vícios, trabalha, mas tem um gênio forte. Passou a ser constante as brigas dele com a mãe, ela não concorda com o seu jeito irresponsável de agir com as mulheres que ele se relaciona. Palavras duras ditas de ambas as partes, acarretou uma crise entre mãe e filho. A Ana não compreendia por ele ser tão diferente dos outros dois filhos. Ele é individualista, detesta compartilhar algo da sua vida com os outros, depende dos outros e não aceita opiniões de ninguém. Vive como se não precisasse de ninguém. Dessa vida, nada levamos, só fará diferença as boas atitudes, os gestos de humanidade, humildade e solidariedade, saber viver em grupo, ajudando e sendo ajudado, sem querer receber nada de volta, o retorno vem de Deus. Se todos fizessem um pouquinho em benefício dos outros, com certeza, esse mundo seria bem melhor. Não gosta de dar nada a ninguém e muito menos emprestar.
A Isabela sempre foi uma ótima filha, nunca deu trabalhos aos seus pais. Sempre responsável com os deveres escolares e em todos os aspectos, agiu com moderação, cautela e muito respeito. Pedro e a Isabela sempre tiveram um comportamento exemplar, dispensando qualquer preocupação.
O Pedro preocupado com aquela situação, sentiu-se tocado a ajudar seu irmão. Na opinião dele, agiu como cristão e fazendo jus a sua religião católica apostólica romana, fazer algo concreto numa demonstração de amor e fé ao Cristo ressuscitado, presente entre nós. Resolveu contar um segredo que guardava durante muito tempo. Talvez estivesse aí a razão daquele comportamento estranho. Quem sabe, uma forma de ajuda-lo a enfrentar essas possíveis traumas do passado. Com riqueza de detalhes, revelou que o seu irmão havia sofrido abuso sexual dentro da própria casa, por pessoas que trabalhavam ali e acima de quaisquer suspeitas.
Uma história de vida inusitada e complexa. Um assunto polêmico, onde as vítimas foram crianças inocentes e indefesas, que se calaram diante a dor, por puro medo. Essas pessoas agiram com crueldade e maldade, se passavam por pessoas de bem. Lamentavelmente saíram ilesas, vivem como se nada tivesse acontecido, não há como provar nada, se passaram muitos anos, aquelas crianças hoje são adultas. Ao saber de tamanha monstruosidade, a mãe sentiu-se como se uma faça atravessasse seu peito, foi tomada por uma dor imensa que tomou conta daquela mulher, não conteve as lágrimas, sentimento de culpa e revolta tomaram conta dela. Há muita gente ruim, maníacos entre nós, são especialistas em disfarces. Que esse caso, sirva de alerta para os pais e responsáveis, para não cometerem os mesmos erros. Todo cuidado é pouco, conversem com seus filhos e esclareçam a eles, que seja qual for o problema, devem falar para seus pais.
Os professores haviam alertado do seu comportamento estranho e distante e solicitaram aos pais, que ficassem atentos, poderia está acontecendo algo muito sério com ele. No primeiro instante, ela começou a observá-lo, para ver se havia ou não a possibilidade de haver uso de drogas, mas com o tempo, descartou essa possibilidade. A Ana, sempre foi uma mãe presente, embora trabalhasse fora, procurava desempenhar o seu papel de mãe da melhor maneira possível. Nunca se passou pela sua cabeça, que aquelas pessoas tão boas e prestativas seriam capazes de tal ato.
O Rafael, hoje é um bom moço, não tem vícios, mas alguma coisa nele necessitava melhorar, é um ser egocêntrico, parece que vive num mundo só dele, muitas vezes pisa nas pessoas sem perceber. Gosta de tudo organizado mas está sempre promovendo desordens, tem um carisma imenso, geralmente as pessoas se encantam com seu jeito de ser, fazem coisas por ele que normalmente não fariam por qualquer outra pessoa, sem querer nada em troca, mas ele acaba abusando dessas gentilezas, achando que essas pessoas têm obrigações. Ele reconhece seus erros e até lamenta pelas palavras ditas em momentos de raiva, mas acaba cometendo os mesmos erros sempre. As vezes ele quer abraçar o mundo e sente-se impotente devido suas próprias condições financeiras, mas apesar de ter potencial, não consegue transmitir segurança e firmeza. Sonha muito, mas desanima no meio do caminho. Quando um problema o atinge para valer, as dores de estômago aumentam, gastrites e dores de cabeça, se fecha dentro de si e parece que sente medo até da sua sombra. Para seus dois irmãos, Pedro e Isabela, o Rafael sempre recebeu a melhor parte de tudo, seus pais sem perceberem, agiam dessa forma e no entanto, nenhum dos dois cresceram com essa carência. A Isabela acha que o Rafael sempre foi o mais protegido e que não havia motivo aparente para ele agir com desequilíbrio. Ele poderia estar morrendo de fome, não teria disposição de ir à cozinha preparar algo, e mesmo estando pronto, não coloca no prato a comida. É muito dependente, parece preguiça, mas quando resolve tentar, quebra prato e derrubava panelas. Para ele, assumir um relacionamento publicamente, fazer declarações de amor, seria tarefa impossível. Deixa transparecer, a situação de estar com uma na intenção de outra, essa é a impressão que ele passa para todos, instabilidade constante.
Diante tudo isso, o que fazer? Como poderemos ajudá-lo?